Acabei de participar de uma conferência de três dias sobre prosperidade sustentável na Europa, com a presença de milhares de pessoas.
Em um emocionante discurso de abertura, o palestrante disse que os governos devem parar de usar mal o crescimento do PIB como seu objetivo e avançar rápida e urgentemente para o bem-estar sustentável dentro dos limites do planeta. Foi aplaudido de pé.
O jovem líder de um movimento climático e de justiça social encerrou o evento convidando os presentes a se unirem ao “movimento dos movimentos”, para criar uma nova economia baseada na prosperidade sustentável, justiça e suficiência. Todos se levantaram para mostrar sua solidariedade.
Este não é o começo de uma novela utópica que se passa em um universo alternativo.
Este foi um evento real: a conferência Beyond Growth, realizada no Parlamento Europeu em maio. Patrocinado pela Comissão Europeia e pelo Clube de Roma, atraiu mais de 2,5 mil participantes (com outros 2 mil online).
Acredito que marca um ponto de inflexão no pensamento e na governança em resposta à convergência de crises que a humanidade enfrenta hoje.
Estamos em uma corrida contra vários pontos críticos. Estamos ultrapassando os limites planetários biofísicos e o clima está se aproximando rapidamente de pontos de inflexão irreversíveis, que podem levar o mundo para um lugar que a civilização humana nunca experimentou.
O capital social está se desgastando devido à desigualdade desenfreada e à polarização política. As pessoas ao redor do mundo reconhecem que a vida não está melhorando. Níveis de ansiedade, depressão e burnout estão disparando em todo o mundo ocidental. Funcionários em jornada integral incapazes de pagar aluguel, pessoas que recorrem a trabalhos precários para sobreviver, empregadores cortando funcionários e aumentando a carga de trabalho – tudo se tornou normal neste sistema, que extrai recursos naturais, energia e tempo.
A causa raiz dessas crises é nosso vício social em um paradigma econômico ultrapassado baseado na busca obstinada do crescimento do PIB a todo custo. Esse paradigma afirma que tudo o que as pessoas querem é mais renda e consumo sem limites, que a economia de mercado pode crescer para sempre, que a desigualdade maciça é justificada para fornecer incentivos para promover o crescimento e que quaisquer esforços para enfrentar o clima e outros problemas ambientais não devem interferir nos crescimento.
A conferência da UE, por outro lado, enfatizou o que há muito é reconhecido em partes das comunidades acadêmica e política – que o PIB nunca foi projetado para medir o bem-estar social, uma vez que mede apenas a produção e o consumo comercializados, combinando resultados positivos e negativos. Também não diz nada sobre distribuição de renda, trabalho não remunerado ou danos ao meio ambiente. Continuar a usar indevidamente o PIB como objetivo de política está levando nossas sociedades a um futuro insustentável que beneficia uma fração cada vez mais pequena da população, ao mesmo tempo em que empobrece a grande maioria.

Todas essas coisas devem ser consideradas em qualquer tentativa de medir o verdadeiro bem-estar social.
A conferência Beyond Growth teve várias sessões sobre indicadores alternativos que fazem exatamente isso. Mostrou que o número de experimentos com indicadores de bem-estar social está na casa das centenas. Esses experimentos podem nos ajudar a chegar a um amplo consenso sobre o que precisa ser incluído para formar uma imagem mais completa e útil do bem-estar social que possa substituir o PIB como uma meta social.
Também enfatizou a necessidade de modelos que incorporem a complexa dinâmica do sistema econômico inserido na sociedade e no restante da natureza. Esses modelos permitiriam projeções para o futuro para avaliar a sustentabilidade de várias políticas voltadas para o bem-estar da sociedade. Eles poderiam aproveitar muitos esforços recentes, incluindo o modelo LowGrow da economia canadense e o modelo global Earth4All do Clube de Roma.
A conferência também reconheceu os esforços pioneiros de vários governos, incluindo a UE e o grupo Wellbeing Economy Governments (WEGo) – Canadá, Finlândia, Islândia, Nova Zelândia, Escócia e País de Gales – para começar a implementar medidas de bem-estar sustentável e as políticas necessárias para alcançá-los.
Quais são essas políticas? Uma carta aberta, assinada por mais de 400 importantes economistas, cientistas, formuladores de políticas e ativistas, fornece a seguinte lista de alguns dos principais elementos:
Biocapacidade: Eliminação gradual de combustíveis fósseis, limites à extração de matérias-primas, proteção da natureza e medidas de restauração para solos, florestas, ecossistemas marinhos e outros ecossistemas saudáveis e resilientes. Por exemplo, um tratado de não proliferação de combustíveis fósseis; uma lei de justiça e resiliência de recursos, incluindo uma meta vinculativa de redução da pegada de material e restauração real da natureza.
Justiça: Instrumentos fiscais para promover uma sociedade mais igualitária, erradicando os extremos de renda e riqueza, bem como os superlucros. Por exemplo, um imposto sobre riqueza de carbono; rendimentos mínimos e máximos.
Bem-estar para todos: acesso garantido a infraestruturas essenciais por meio de um Estado de bem-estar aprimorado e ecologicamente sensível. Por exemplo, Serviços Básicos Universais (incluindo os direitos humanos à saúde, transporte, assistência, moradia, educação e proteção social); garantias de emprego; controle de preços de bens e serviços essenciais.
Democracia ativa: Assembleias cidadãs com mandatos para formular estratégias de suficiência socialmente aceitáveis e fortalecer políticas baseadas em limites ecológicos, justiça e bem-estar para todos e um papel mais forte para os sindicatos. Por exemplo, fórum de necessidades locais; convenções climáticas; orçamento participativo.
Por fim, a conferência reconheceu que os interesses investidos na manutenção do sistema atual – incluindo bilionários, o setor de combustíveis fósseis, o setor de defesa, a indústria farmacêutica e a agricultura industrial – continuarão a lutar para impedir as mudanças transformadoras necessárias.
Superar nosso vício social pelo sistema atual exigirá um amplo consenso e um movimento de movimentos em torno do objetivo comum de bem-estar sustentável para os seres humanos e o resto da natureza. Esperamos que esta conferência seja lembrada como uma das primeiras centelhas do movimento para criar o mundo que todos queremos.
