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Assassinato de candidato presidencial agrava crise no Equador

Por trás do assassinato de Fernando Villavicencio há uma teia de violência, tráfico de drogas e corrupção que assola o país

Assassinato de candidato presidencial agrava crise no Equador
Fernando Villavicencio era aliado do atual presidente, Guillermo Lasso
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Fernando Villavicencio, de 59 anos, um dos oito candidatos às eleições antecipadas à presidência do Equador, foi assassinado nesta quarta-feira, 9 de agosto, durante uma manifestação pública. O suposto assassino morreu em um incidente confuso com a polícia. O presidente Guillermo Lasso disse estar "indignado e chocado" e atribuiu o assassinato ao "crime organizado".

O atentado contra Villavicencio se soma aos assassinatos do prefeito de Manta, Agustín Intriago; de Ryder Sánchez, candidato ao parlamento; e de Miguel Santos Burgos, diretor de Planejamento, Ordenamento e Terras do Município de Durán, em Guayas, regiõs-chave nas rotas de negócios ilícitos.

Pelo menos 40 tiros foram registrados durante o atentado. Parte do time de segurança de Villavicencio era composto por policiais em serviço passivo. Seis suspeitos foram detidos e nove pessoas ficaram feridas. Villavicencio estava acompanhado por ex-parlamentares do Movimento Pachakutik que apoiaram a defesa de Lasso no processo de impeachment contra ele.

O Ministério da Defesa do Equador emitiu um comunicado explicando que "as Forças Armadas estão em alerta, prontas para agir imediatamente contra os grupos criminosos e seus cúmplices, assim que as autoridades assim o ordenarem".

Sob o governo Lasso, o aumento da violência no Equador chegou a níveis sem precedentes, including 14 massacres em prisões e a maior taxa de homicídios da história do Equador, com 40 homicídios por 100 mil habitantes, o que faz do Equador o mais violento da América do Sul.

Dados do Ministério da Economia e Finanças (MEF) revelam que, de janeiro a junho de 2023, o Ministério do Interior utilizou US$ 8,6 milhões dos US$ 96,9 milhões do seu orçamento para todo o ano — uma execução de 8,8% apesar da grave situação de insegurança.

Quem era Villavicencio?

Ex-sindicalista do setor petroleiro entre 1996 e 1999, Villavicencio se identificava como jornalista investigativo e ativista.

Em 2014, Villavicencio foi condenado por difamação contra o presidente Rafael Correa no caso 30S. Ele viajou a Washington para apresentar medidas cautelares perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), pelo que considerou perseguição por parte do governo Correa. Ele fugiu para a selva e se refugiou na comunidade Sarayaku sob a proteção de José Gualinga e Marlon Santi, também defensores de Lasso.

Como jornalista, Villavicencio ganhou o apelido de "denunciante". Ele investigou o financiamento do capital chinês no governo Correa, o que o levaria a ganhar seguidores entre os opositores do regime de Correa. Em abril de 2020, Correa e 19 membros de seu governo foram condenados a oito anos de prisão por supostamente liderar uma rede de suborno.

Até 2017, Villavicencio se refugiou em Lima, de onde voltou com a permissão e o apoio do ex-presidente Lenín Moreno, sucessor de Correa, mas considerado como traidor dos princípios de seu partido.

Em 2019, Villavicencio colaborou com o Washington Post na investigação das relações Trump-Rússia que revelou que Paul Manafort manteve conversações com Julian Assange na embaixada do Equador. No entanto, o WikiLeaks posteriormente acusou Villavicencio de forjar evidências.

Alidado de Lasso

Em 2021, Villavicencio foi eleito deputado com o apoio da Alianza Honestidad, que indicou César Montúfar para a presidência da República, formada pelo Movimiento Concertación e pelo Partido Socialista Ecuatoriano.

Atacar Los Choneros no Equador significa atacar o Cartel de Sinaloa, que controla o tráfico de drogas no corredor do Oceano Pacífico desde 2011

Como presidente da Comissão de Fiscalização da Assembleia Nacional, Villavicencio travou vários processos. De fato, ele formou um grupo paralelo de investigação dentro da própria Assembleia sob o nome de Frente Parlamentar Anticorrupção junto com os deputados Sofía Sánchez e Ricardo Vanegas, do partido Pachakutik, visitantes regulares do Palácio do Governo.

Villavicencio foi o principal defensor de Lasso no capítulo mais recente do processo de impeachment na Assembleia Nacional desde janeiro de 2023, quando veio à tona o caso conhecido como o "El Gran Padrino", que liga o presidente equatoriano à máfia albanesa.

No julgamento, a Comissão de Fiscalização emitiu parecer favorável ao presidente Lasso. Villavicencio confirmou que Lasso o havia indicado para presidir a Comissão, protegendo o poder Executivo do trabalho de supervisão da Assembleia Nacional até sua dissolução em 17 de maio.

Quem Fernando Villavicencio representava?

Villavicencio concorria à presidência pelo movimento Construye, lista 25, liderado por María Paula Romo, ex-ministra do presidente Lenín Moreno. Ela foi destituída, em novembro de 2020, pela Assembleia Nacional em um processo que investigou seu papel na "distribuição de hospitais aos membros da Assembleia" e seu papel como estrategista na repressão de outubro de 2019 contra os movimentos sociais que rejeitaram o "pacote de acordos" de Moreno.

O movimento Construye também promove a candidatura do ex-ministro do Interior, Patricio Carrillo, policial de carreira. Ele foi condenado em fevereiro, acusado de descumprir seus deveres no caso María Belén Bernal e durante a última greve nacional em junho de 2022.

Villavicencio, María Paula Romo e Patricio Carrillo, formaram um projeto político que também recebe o apoio dos "Cidadãos de Bem". Eles depositaram todas as suas forças na figura de Villavicencio, uma vez que Romo e Carrillo estão impedidos de ocupar cargos públicos. Em uma nota de falecimento, Construye 25 o descreveu como um "lutador incansável".

Villavicencio foi o candidato que registrou o maior orçamento para a campanha eleitoral, segundo o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), mais de 3 milhões de dólares.

Narcotráfico

"A polícia sabe onde estão os esconderijos dos criminosos e narcotraficantes", disse Villavicencio à Ecuavisa na quarta-feira, 9 de agosto, quando prometeu depurar as forças de segurança.

A suspensão das eleições devido ao assassinato de um candidato presidencial não é uma opção

Em outras entrevistas, Villavicencio disse ter recebido ameaças de "Fifo," líder da quadrilha criminosa "Los Choneros", aliada do Cartel de Sinaloa, por quem exercia a custódia e transporte de drogas.

Atacar Los Choneros no Equador significa atacar o Cartel de Sinaloa, que controla o tráfico de drogas no corredor do Oceano Pacífico desde 2011. Assim, atacar Los Choreros também significa favorecer o cartel Jalisco Nueva Generación, que entrou em uma disputa para controlar o mesmo corredor e armou pequenas gangues criminosas nas províncias de Esmeraldas e Manabí para esse fim.

Dias antes, o coordenador nacional do "Cidadãos de Bem", Francisco Jácome, reconheceu: "Com Los Tiguerones, realizamos um comício espetacular". As declarações levantaram uma série de suspeitas e acusações de novos vínculos com outra gangue criminosa que mergulhou Esmeraldas na violência.

'Eu responsabilizo o governo nacional'

Em mais de uma ocasião, Villavicencio desafiou os autores das ameaças: “Me disseram para usar colete à prova de balas. Mas aqui estou, com a camisa suada. Vocês são meu colete à prova de balas." Essa mesma noite, começou a circular um vídeo de Los lobos, facção criminosa que assumiu a autoria do assassinato de Villavicencio.

“O que fez o governo nacional? ... Ninguém lhe deu proteção. É um complô. Queriam silenciá-lo. Mas Deus não vai permitir”, disse Patrícia, irmã de Villavicencio. "Responsabilizo o mundo, o país, pela grave crise de insegurança que vivemos, responsabilizo o governo nacional", afirmou.

A esposa de Villavicencio, Verónica Sarauz, denunciou a falta de cumprimento do protocolo de segurança. Villavicencio não foi escoltado e não saiu pelos fundos da Anderson School, como fez Patricio Carrillo. Sarauz também convocou uma guerra civil e pediu que a morte de Villavicencio não ficasse impune.

Suspensão das eleições

A suspensão das eleições devido ao assassinato de um candidato presidencial não é uma opção. Não há nenhuma disposição legal no Código da Democracia a esse respeito. O art. 112 afirma que, se um candidato morrer, ele poderá ser substituído por outro candidato da mesma organização política. Construye pode tomar essa decisão.

O assassinato de Fernando Villavicencio, um candidato aparecia entre o quarto e o quinto lugar nas pesquisas de intenção de voto, provavelmente reformulará as forças políticas que aumentarão o voto da direita.

A autoridade eleitoral equatoriana anunciou que está construindo um Plano de Segurança para os candidatos. Por solidariedade ou medo, os presidenciáveis ​​publicaram notas de pesar e suspenderam a campanha.

"Não entregaremos o poder e as instituições democráticas ao crime organizado, mesmo que disfarçado de organizações políticas", disse Lasso em rede nacional ao declarar três dias de luto por Villavicencio e Estado de Exceção por 60 dias.

As eleições presidenciais serão realizadas no Equador em 20 de agosto, confirmou Diana Atamaint, presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Que escolha resta aos equatorianos após uma saga de violência sem precedentes? Não há uma resposta simples.

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