O Brasil não tem infraestrutura para fazer frente à emergência climática. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva vem sendo duramente pressionado devido aos catastróficos incêndios que assolam a região amazônica há dois meses. No entanto, a solução vai muito além do governo atual – e das fronteiras do país.
A pior estiagem que o Amazonas vive em 121 anos secou o Rio Negro, interrompendo o transporte não apenas de pessoas, mas também de recursos básicos como medicamentos, comida e água. A crise colocou os holofotes no governo do Partidos dos Trabalhadores (PT), que se elegeu em outubro do ano passado com promessas de priorizar a defesa do meio ambiente.
Em outubro, o governo liberou cerca de R$ 650 milhões para o combate à seca na região Norte, valor que já foi ampliado para quase $700 milhões. Na última sexta-feira, 10 de novembro, o governo também aumentou de R$ 35 milhões a R$ 45 milhões o valor que cada um dos nove estados da Amazônia Legal pode acessar do Fundo Amazônia. O Ibama também anunciou um aumento de 18% no número de brigadistas para fazer frente às queimadas.
No entanto, para muitos a resposta do governo Lula tem sido insuficiente. “Toda a população brasileira (poderia ser chamada) para ser brigadista e ainda assim não seria suficiente para combater incêndios na Amazônia. A área é muito grande, com lugares de difícil acesso, um trabalho árduo”, disse ao Estadão a pesquisadora da Universidade de Oxford Erika Berenguer.
A crítica da especialista, assim como a oposição que defende que a resposta do governo fica aquém da gravidade da situação, aponta para a necessidade de um planejamento e preparação abrangentes capazes de prevenir consequências de eventos climáticos extremos em vez de mitiga-las. O Brasil de fato está muito longe disso. O próprio governo reconhece. “Obviamente a gente tem de se planejar melhor, ter estruturas melhores”, admitiu o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho.
Mas essa estrutura não se constrói em alguns anos, muito menos em alguns meses. O cenário se vê ainda mais complicado devido ao desmantelamento dos órgãos e legislação dedicados à proteção do meio ambiente desde a saída do PT do poder em 2016, que aumentou de forma exponencial entre 2019 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro.
Em vez de pensar a longo prazo, o Brasil agora está em fase de reconstrução da estrutura básica de proteção ambiental, algo que Lula vem fazendo desde o começo de seu mandato em janeiro. Mas o presidente tem oportunidades únicas de reposicionar o Brasil na luta global contra as mudanças climáticas.
2023: ano com mais desastres naturais
A seca histórica não é um fato isolado. Esse ano foi marcado por outros fenômenos climáticos históricos, agravados por um El Niño particularmente forte ano. Fazendo contraste à seca e aos incêndios do Norte, o Sul e o Sudeste vêm sendo assolados por chuvas e inundações. O ciclone extratropical de setembro na região Sul causou pelo menos 51 mortes e danos de R$1,3 bilhões, se convertendo no pior desastre natural em seis décadas no Rio Grande do Sul. Outros dois ciclones, em junho e em julho, já haviam causado mortes e deixado lastro de destruição. Apesar do fenômeno ser comum, os ciclones estão cada vez mais fortes.
O combate aos efeitos das mudanças climáticas requer ações multifacetadas, envolvendo atores tanto a nível nacional como a nível internacional
O Brasil vem sofrendo com inundações. Até o momento, um em cada três municípios brasileiros entrou em situação de emergência devido às chuvas, fazendo de 2023 o pior ano em termos de desastres naturais do país.
Atualmente, uma onda de calor produz temperaturas sem precedentes para o mês de novembro, com algumas cidades registrando até 15° acima da média. O calor vem sobrecarregando os sistema elétricos, que já se vêm debilitados diante da destruição causada pelas chuvas. Em São Paulo, uma das cidades mais populosas do mundo, mais de 2 milhões de pessoas ficaram sem luz no começo do mês, um apagão que durou quase uma semana.
Brasil precisa abandonar combustíveis fósseis
Estabelecer uma estrutura robusta para enfrentar todos esses fenômenos requer tempo e investimentos que vão além do governo Lula. A comunidade internacional, em sua luta coletiva contra a emergência climática, deve priorizar os países hospedeiros das florestas tropicais por seu papel vital no controle do aquecimento global.
A nível nacional, Lula tem a difícil missão de buscar o equilíbrio entre a dependência econômica de setores extrativistas e a proteção do meio ambiente necessária para enfrentar os efeitos da crise climática.
Para isso, o Brasil precisa passar por uma reestruturação de seus objetivos político-econômicos. O Brasil está em uma posição privilegiada para se tornar um líder em produção de energia sustentável, o que não só protegeria as florestas tropicais, mas também poderia fazer do Brasil um país mais competitivo economicamente, como aponta um estudo do Banco Mundial de 2023.
Lula, apesar de liderar esforços importantes de redução do desmatamento – que caiu em 42% esse ano com relação a 2022 –, peca com sua política que favorece a exploração de combustíveis fósseis, inclusive na região amazônica. Um investimento da mesma proporção seria o bastante para elevar a indústria de energia renovável a um novo patamar. “Adicionar mais energia limpa não seria mais caro para o Brasil do que os planos atuais para expandir a geração de combustíveis fósseis”, argumenta o relatório do Banco Mundial.
O combate aos efeitos das mudanças climáticas – que já são um problema real no Brasil – requer ações multifacetadas, envolvendo atores tanto a nível nacional como a nível internacional. Nessa luta, alguns países e regiões merecem prioridade. O Brasil é um deles. Mas o governo – este e os que seguirem – precisa começar a transformar a economia e tirar proveito das oportunidades com olho no futuro, deixando para trás as indústrias que trazem benefícios apenas a curto prazo.