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Crônica das crianças perdidas na selva ilustra situação sociopolítica da Colômbia

A violência do país lança uma sombra sobre a história de sobrevivência dos irmãos indígenas na Amazônia colombiana

Forças militares colombianas ajudam quatro crianças
Forças militares colombianas ajudam quatro crianças que sobreviveram 40 dias na selva amazônica depois de acidente de avião no departamento de Caquetá, em 9 de junho de 2023
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“Minha vida de herói não tem nada de especial” escreveu García Márquez em "Relato de um Náufrago", que conta em primeira pessoa a história de um marinheiro que passou dez dias boiando no mar do Caribe após um acidente naval que as autoridades militares negaram ter acontecido. A crônica jornalística publicada em fascículos no jornal colombiano "El Espectador", em 1955, causou grande escândalo e obrigou seu autor ao exílio.

Quase 70 anos depois, Lesly, a mais velha dos quatro irmãos que sobreviveram 40 dias perdidos na Amazônia colombiana após um acidente de avião, poderia facilmente dizer que sua vida como heroína "não tem nada de especial". A história deles não é outra senão mais uma de resistência milagrosa, que se conecta com a história de mais de 500 anos de sobrevivência indígena na selva e um ambiente violento e implacável onde as primeiras vítimas geralmente são crianças.

O caso tem todos os ingredientes para se tornar uma série de sucesso da Netflix, mas também tem suas facetas obscuras que ilustra a dura realidade sociopolítica da Colômbia hoje, permeada por uma violência incessante, apesar dos esforços de sucessivos governos, da sociedade civil e da cooperação internacional.

Em sua mobilização para encontrar os únicos sobreviventes de um acidente aéreo entre os departamentos de Guaviare e Caquetá, o exército colombiano chegou várias vezes a estar a metros das crianças de 13, 9, 4 e 1 ano. Mas aparentemente os irmãos Mucutuy, da comunidade indígena Muinane, se escondiam quando ouviam os helicópteros e as vozes dos militares. Eles tinham medo deles.

No dia 1º de maio, Lesly, Soleiny, Tien Noriel e Cristin viajavam com a mãe, Magdalena, e o líder indígena Hermán Mendoza Hernández, amigo da família, quando se acidentaram. Magdalena, Hermán e o piloto morreram na queda do avião monomotor, um velho CESNA americano reciclado para os voos precários que conectam comunidades na Amazônia. A família estava indo ao encontro do marido de Magdalena e pai biológico de dois dos quatro filhos, Manuel Ranoque, que, segundo disseram, teria fugido da violência no sul do país.

Ranoque, que foi governador de sua comunidade indígena em Puerto Sábalo, no departamento de Caquetá, afirma que as ameaças da Frente Carolina Ramírez, dissidentes das FARC, o forçaram a abandonar sua posição de líder social, sua comunidade e até mesmo sua família durante do dia para a noite. Segundo conta, depois de quase um mês foragido, conseguiu entrar em contato com a esposa para pedir que fosse a San José del Guaviare, na Amazônia colombiana, de onde seguiriam juntos para Villavicencio, nas Planícies Orientais, ou para Bogotá, para começar uma nova vida.

Ranoque disse que pensou ter escapado das supostas ameaças, mas a atenção midiática em torno do caso de seus filhos mais uma vez colocou sua vida em risco. “A frente de Carolina Ramírez está me procurando para me matar”, disse em entrevista. “Me ameaçam porque para eles sou um alvo”, conclui. Em outra entrevista, Ranoque disse que "tinha muito medo que recrutassem meus filhos", acrescentando que os grupos armados do país "recrutam até criança de dois anos".

Os irmãos Mucutuy preferiram se esconder na mata a se deixarem encontrar pelas autoridades

Mas o grupo ilegal nega ter ameaçado Ranoque ou as acusações de recrutamento de crianças e pede a Ranoque que rectifique suas declarações para que "não prejudique a tentativa de processo de paz que já iniciamos com o governo nacional".

A situação é confusa e a superexposição da mídia faz emergir questões que negam a história heróica inicial e expõem as múltiplas arestas da complexa realidade colombiana. A família da mãe também contradiz a versão de Ranoque, além de reivindicar a guarda dos filhos perante o Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar (ICBF) e de acusá-lo de supostos abusos sexuais e violência doméstica. Ranoque admitiu haver agredido verbal e fisicamente Magdalena, acrescentando que "fisicamente muito pouco, porque tínhamos mais problemas com as palavras".

Ausência do Estado

É nesse contexto que os irmãos Mucutuy preferiram se esconder na mata a se deixarem encontrar pelas brigadas mistas de agentes do Estado e da comunidade indígena. A Colômbia lidera a lista de homicídios de líderes ambientais, muitos deles indígenas. Essa violência é resultado de décadas de conflito armado que assola a Colômbia.

O Acordo de Paz de 2016 entre o governo colombiano e as FARC, principal grupo armado do país, tentou resolver a questão – mas com pouco sucesso devido à oposição política ao acordo, inicialmente rejeitado em referendo popular e que, após reformada, sofreu grande descrédito devido ao baixo interesse político em implementá-la por parte do governo de Iván Duque, que sucedeu ao de Juan Manuel Santos, arquiteto do histórico acordo.

A Colômbia é um país dividido em dois. A Colômbia onde o Estado governa e a Colômbia onde não. Nos territórios onde não, a ausência do Estado gerou vácuos de poder que foram ocupados por grandes latifundiários ou por grupos ilegais, desde guerrilhas como as FARC, o ELN e o EPL, até grupos paramilitares e crime organizado, a maioria deles ligado ao narcotráfico. Durante o conflito armado, iniciado em 1964, a guerrilha das FARC chegou a controlar 22% do território nacional e, apesar do acordo em vigor, grandes áreas do país permanecem fora do controle do Estado.

Os diferentes grupos armados ilegais, alguns com vocação revolucionária, outros com vocação criminosa, atuam tradicionalmente nas áreas mais pobres do país, principalmente rurais e próximas às fronteiras, onde vivem a maioria das comunidades indígenas do país. Por serem territórios remotos e mal comunicados, com altos índices de informalidade e baixa inserção econômica, essas regiões foram tomadas por economias ilegais, como o cultivo de coca ou o garimpo ilegal, que ofereciam oportunidades para famílias rurais sem acesso às estruturas formais do país .

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Desta forma, grupos ilegais atuam em vastas porções do território colombiano, impondo sua lei pela força, como autoridades de facto. A fraca implementação efetiva do Acordo de Paz fez com que a retirada das FARC daquelas regiões deixasse um vácuo de poder que não foi preenchido pelo governo com as medidas de mitigação planejadas, como distribuição de terras, desenvolvimento rural e substituição de cultivos ilícitos, mas por interesses locais, muitas vezes nas mãos de grupos criminosos de diferentes matizes.

Se esconder é sobreviver

As comunidades indígenas da Amazônia colombiana estão entre os grupos que mais sofreram com o conflito armado de mais de cinco décadas. E também os que mais sofreram as consequências de sua retirada repentina após a assinatura do acordo.

“As autoridades estaduais responsáveis ​​pela devolução de terras muitas vezes as entregam a grandes proprietários e não a grupos indígenas”, disse a especialista Monika Lauer Perez em entrevista à DW em 2017. “Pode-se dizer que a injustiça continua, só que sem armas” , concluiu.

Pouco mudou neste panorama nos últimos cinco anos, embora a chegada do atual presidente, Gustavo Petro, e seu compromisso com a "paz total" represente um novo e arriscado esforço para negociar o fim da violência com os diferentes grupos que continuam a praticá-la. Junto com a notícia da descoberta dos quatro irmãos vivos na selva, um Petro que precisava muito de mensagens positivas diante de escândalos recentes anunciou uma trégua de seis meses com o ELN, o principal grupo guerrilheiro ativo do país.

Os assassinatos de lideranças sociais e ambientais dispararam desde a assinatura do acordo em 2016. Em 2021, a Colômbia registrou a morte de um indígena para cada quatro dias do ano. Diante desse cenário de violência, não surpreende que as crianças perdidas tenham preferido se esconder e sobreviver de farinha de mandioca e frutas a se entregarem a homens uniformizados que poderiam querer matá-las em vez de resgatá-las.

De certa forma, os irmãos fizeram o que seus ancestrais fizeram durante séculos, quando viram seus territórios colonizados e suas aldeias destruídas, que foi resistir e se esconder nas profundezas da selva. Afinal, a selva é seu habitat natural, sendo parte de seu ecossistema.

O grande García Márquez poderia ter descrito esse milagre da sobrevivência indígena com o envoltório trágico do realismo mágico que permeia a violenta história do país. Mas a verdadeira "Crônica das crianças perdidas na selva" ainda não foi escrita.

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