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Cúpula Celac-UE mostra oportunidades para a América Latina no novo cenário global

A mínima menção da Ucrânia na declaração final destaca a crescente capacidade da região de afirmar sua autonomia

Luiz Inacio Lula da Silva, Ursula von der Leyen e Pedro Sanchez Perez-Castejon posam lado a lado
Os dois grupos se reuniram pela primeira vez em oito anos, indicando uma vontade mútua de reaproximação
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A cúpula entre a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União Europeia, realizada esta semana em Bruxelas, expôs o papel da América Latina no xadrez político internacional diante da crescente fragmentação da realidade unipolar das últimas décadas.

O encontro, o primeiro em oito anos, foi marcado por divergências sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os 27 representantes europeus, agindo de forma unificada, exigiram a inclusão de um repúdio formal à Rússia na declaração da cúpula. Mas estavam diante de 33 países de uma região heterogênea que mantém alianças muito distintas com as potências envolvidas na guerra.

A divergência de posições ameaçou deixar a cúpula sem uma declaração, mas as partes chegaram a um consenso. O texto final não condena a Rússia e menciona a guerra apenas uma vez. A menção foi suficiente para que a Nicarágua – fiel aliada da Rússia – se recusasse a assinar a declaração. Todos os demais países a endossaram.

“Expressamos profunda preocupação com a guerra em curso contra a Ucrânia, que continua a causar imenso sofrimento humano e está exacerbando as fragilidades existentes na economia global, restringindo o crescimento, aumentando a inflação, interrompendo as cadeias de abastecimento, aumentando a insegurança energética e alimentar e elevando os riscos à estabilidade financeira”, afirma a única passagem do texto sobre a Ucrânia. Não há menção explícita à Rússia.

A discussão dominou boa parte da agenda, ofuscando temas importantes como o debate promovido pelos países caribenhos sobre as reparações pelos séculos de colonialismo europeu e o anúncio de investimentos da União Europeia na América Latina e no Caribe – o que gerou ressentimento entre muitos representantes.

“Não podemos fazer desta cúpula entre a União Europeia e a Celac uma cúpula sobre a Ucrânia”, argumentou o presidente pro tempore da Celac, Ralph Gonsalves, primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas. Mas o consenso final do documento sobre a guerra se alinha mais com as demandas da Celac do que com as da UE, considerando a importância que os europeus deram ao tema, o que indica a determinação do bloco em estreitar laços com seus pares latinos e caribenhos.

Na Europa, a preocupação com as consequências da guerra é muito grande. A incompreensão ou, até mesmo, a equidistância demonstrada por alguns países latino-americanos, que veem nesse conflito uma oportunidade de afirmar sua autonomia ao negociar seus interesses com a Rússia, a China ou quem quer que seja, é motivo de ansiedade. O apelo europeu de defensa dos valores fundamentais em jogo devido à agressão russa é relativizado na América Latina, dada a duplicidade, arrogância e hipocrisia que as ex-potências coloniais exerceram historicamente no continente.

Necessidade energética

Paradoxalmente, o interesse mais urgente da Europa em se aproximar da América Latina e do Caribe decorre da ruptura com a Rússia. A região oferece novas oportunidades de fontes de energia para os países europeus que precisam reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis russos. A situação coloca a América Latina em uma posição rara para negociar com a União Europeia, uma antiga ambição da região.

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A América Latina é uma potência em potencial de produção de energia renovável. Hoje, a região já produz o dobro da média mundial. De fato, a UE enfatizou seu interesse no hidrogênio verde na cúpula ao anunciar projetos de investimento no valor de 45 bilhões de euros que planeja investir na América Latina e no Caribe até 2027 por meio de sua iniciativa Global Gateway. Entre eles, destaca-se a iniciativa de investir 2 bilhões no Brasil – que tem um dos setores energéticos menos intensivos em carbono do mundo – e 225 milhões iniciais no Chile para desenvolver um fundo de hidrogênio renovável.

O Brasil, principal economia da região, também lidera os esforços de energia limpa em outras áreas, sendo um dos principais geradores de empregos no setor de energia renovável e um dos líderes na instalação de usinas eólicas. Assim, a cúpula também ofereceu ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, uma oportunidade de promover seus ambiciosos objetivos diplomáticos.

Em Bruxelas, ao contrário de instâncias anteriores, Lula evitou defender a Rússia, optando por questionar a priorização da Europa em investir na guerra em detrimento de outras emergências mais globais, como as ameaças climáticas.

A mudança de atitude do líder brasileiro mostra que o interesse nas negociações com a União Europeia é uma prioridade. O bloco também tem demonstrado o mesmo, um interesse enfatizado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nos últimos dias.

“A Cúpula UE-Celac marca um ponto de inflexão nas relações entre nossas regiões”, afirmou em um tuíte, na terça-feira, 18 de julho. “Já temos laços econômicos prósperos. Agora queremos forjar alianças políticas mais fortes e mais próximas”.

Disputa com a China

A reaproximação com a América Latina também é necessária para a UE por motivos mais amplos. A negligência do Ocidente em relação à região abriu as portas para o principal ator da nova aposta multipolar ao sistema internacional.

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Enquanto a Europa e os Estados Unidos se concentravam nos conflitos no Oriente Médio nos últimos 20 anos, a China se concentrou em ampliar sua influência na América Latina, a principal região exportadora de commodities do mundo. O comércio entre a China e os países latino-americanos aumentou 26 vezes entre 2000 e 2020, passando de US$ 12 bilhões para US$ 315 bilhões.

Embora os Estados Unidos continuem sendo o principal parceiro econômico da Celac como um todo, o país já foi substituído pela China em vários países-chave, como o Brasil, que tem a China como principal parceiro comercial desde 2009. O anúncio dos projetos bilionários para região durante o evento também não é por acaso. A iniciativa Global Gateway é amplamente interpretada como uma alternativa ao Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative – BRI), a iniciativa de investimento em infraestrutura da China.

Embora ambas as iniciativas ainda tenham mais peso na retórica do que na prática, os países latino-americanos podem aproveitar o momento de interesse para avançar em projetos de largo prazo, agora que têm a oportunidade de negociar com as diferentes potências mundiais.

Acordo Mercosul-UE

Talvez a principal oportunidade oferecida pela cúpula esteja completamente fora de sua agenda. O encontro entre as duas regiões reacendeu as conversas sobre o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que apesar de finalizado em 2019 ainda não foi ratificado.

As negociações foram paralisadas durante o governo de Jair Bolsonaro, um presidente que promoveu a política ambiental mais prejudicial da era democrática do Brasil, e devido à oposição de alguns países do bloco europeu – liderados pela França – que temem por seu setor agrícola interno.

As negociações, iniciadas em 2000, enfrentaram um novo obstáculo em março, quando a UE propôs um adendo (conhecido como side letter) que endurecem os compromissos ambientais. Os sul-americanos criticaram a proposta, que consideram ser uma ameaça colonialista.

Lula aproveitou a cúpula entre a Celac e a UE para negociar informalmente os impedimentos e convencer seus homólogos europeus da urgência de aprovar o acordo até o final deste ano, antes das eleições para o Parlamento Europeu em 2024. Com a chegada de Lula e suas promessas de proteção ambiental ao poder, a UE mostrou interesse renovado no acordo. “A reemergência do Brasil no cenário global é oportuna. Vamos nos associar para combater as mudanças climáticas e construir sociedades mais verdes e mais justas com o #GlobalGateway. E, acima de tudo, vamos concluir a parceria UE-Mercosul.", disse von der Leyen em um tuíte no dia 17 de julho.

Mas a janela de oportunidade é pequena. A distância e prioridades mais prementes levaram a discussões que se estenderam por duas décadas. O mesmo pode acontecer novamente se as partes interessadas não agirem oportunamente.

À primeira vista, a cúpula pode parecer ter sido infrutífera. Mas ela mostrou as oportunidades que estão no horizonte da América Latina nas próximas décadas – se seus governos souberem aproveitá-las.

A América Latina está longe de poder atuar como um bloco na construção de uma nova ordem multipolar, mas cada vez tem mais cartas para defender seus interesses de forma autônoma. A discussão do desacordo sobre a guerra na Ucrânia, além da ansiedade europeia sobre a erosão da ordem internacional baseada em regras, é um sinal claro de que o mundo está mudando também na América Latina.

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