Muitas comunidades locais têm tomado a dianteira na criação de mecanismos para monitorar e proteger a floresta amazônica. O assassinato do jornalista britânico Dom Philips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira, durante uma expedição para registrar esse tipo de iniciativa, se tornou, porém, uma evidência chocante de sua vulnerabilidade ante acorrupção e o abuso de poder. Esse crime é mais um exemplo de por que os povos amazônicos estão tendo que encontrar suas próprias maneiras de defender os princípios de verdade, lei e ordem: proteger a si mesmos e a um ecossistema vital para o futuro da humanidade. É sustentável – e justo – deixá-los tombar sozinhos como mártires?
Phillips estava viajando com Pereira perto do território indígena Vale do Javari, uma área remota próxima à fronteira com o Peru, para registrar grupos de indígenas que lutam pacificamente contra atividades criminosas na Amazônia. Pereira, um dos maiores especialistas brasileiros em grupos indígenas não contatados ou recém-contatados, treinava os membros da comunidade para usar drones e imagens de satélite para monitorar o território e registrar caça ilegal, extração de madeira, pesca, mineração e comércio de drogas. Segundo grupos indígenas, houve tantas invasões nos últimos dois anos quanto antes do território ser legalmente declarado área protegida em 2001. Pereira vinha sendo ameaçado de morte por causa desse trabalho.
Apesar dos riscos de tais esforços, existem muitas comunidades pequenas, não necessariamente treinadas e mal equipadas, em toda a região amazônica, tentando lidar com as ameaças crescentes, tal como a que estava sendo capacitada por Pereira. A líder indígena brasileira Juma Xipaya declarourecentemente, durante a conferência AmazonianLeapfrogging, que: “Estamos defendendo a floresta com nossos corpos, com nossos filhos nos braços, sob uma violência implacável. Os povos da floresta precisam de segurança para que possamos continuar sendo os guardiões da floresta, prestando um serviço não só à Amazônia, mas ao mundo.” Expostos ao risco de confronto com criminosos, esses grupos enfrentam políticas públicas insuficientes ou corruptas e são frequentemente rotulados como “agitadores” ou “agentes contra o progresso”.

Os Kaskirunas de Sarayaku, no Equador, por exemplo, estão aprendendo a usar drones e imagens de satélite para contribuir na gestão e proteção dos 135 mil hectares da terra ancestral do Povo Originário Kichwa de Sarayaku. Kaskiruna é um termo kichwa que significa "protetores da floresta viva". A comunidade de cerca de 1.400 pessoas também conta com o Wios, o Grupo de Seguridad Interna de Sarayaku. Wio é um nome kichwa para uma formiga muito pequena cuja picadadói muito. É um grupo pacífico treinado para monitorar o território, terra e rios, e prestar serviços de resgate. Um de seus principais aliados é um sistema de comunicação por rádio, que foi inaugurado quando eles apreenderam armas e equipamentos do Exército Nacional do Equador, em 2002.
Ilustrando a ambiguidade das políticas ambientais, o Exército estava ali para salvaguardar a instalação de uma empresa petrolífera internacional privada, que obteve autorização do próprio Estado equatoriano, sem consulta à comunidade, para explorar jazidas dentro do território de Sarayaku. A resistênciaincluiu reter trabalhadores da petroleira na comunidade para interromper as atividades de garimpo, que já estavam começando com, por exemplo, o corte de árvores milenares e o plantio de minas em áreas sagradas de mata fechada. Um grupo de mulheres Kichwa apreendeu as armas com as próprias mãos. “Decidimos nos posicionar juntas na abordagem ao Exército, porque sabíamos que se fossem nossos homens sozinhos enfrentando-os, o uso da força poderia ser diferente”, explica Gloria Berta Gualinga, que participou dos protestos de 2002.
A comunicação via rádio ajudou no apoio à ação contra os invasores e, desde então, se tornou parte importante da vida da comunidade.
Sarayaku levou o caso à justiça contra o Estado do Equador e ganhou. Eles obtiveram o direito de manter os projetos extrativistas fora de seu território – um direito que eles têm no papel, mas que não é totalmente seguido na prática. A ameaça ainda existe, e Sarayaku, junto com outros movimentos indígenas, continua sendo estigmatizado por agir contra os interesses mais amplos do país.
A forma como os povos indígenas são retratados na mídia contribui para esse estereótipo. Conforme destacado por um relatório recente da Climate Outreach, as oportunidades limitadas de expressar seus próprios pontos de vista aumentam os riscos de atitudes coloniais – difamação, criminalização e racismo – serem perpetuadas. Em outro caso de resistência local, em 2009, um coletivo de 26 comunidades tradicionais do entorno da Gleba Nova Olinda, no Pará, Brasil, foi inserido nessa lista de “obstáculos ao desenvolvimento”. As comunidades bloquearam o rio Arapiuns e pararam duas balsas que transportavam 1.500 m3 de madeira retirada da floresta, retendo sua tripulação.
Os manifestantes queriam chamar a atenção para a exploração ilegal de seu território e destacar a importância de estabelecer legalmente áreas protegidas associadas com comunidades indígenas e tradicionais que vivem e trabalham no território há muito tempo – uma mistura entre tribos originárias e grupos que se estabeleceram ali como resultado de ondas migratórias internas desde as primeiras décadas do século XX. Assim como os Sarayaku, eles foram rapidamente rotulados como criminosos por roubar os barcos e bloquear o rio, e muitos meios de comunicação descreveram o incidente como envolvendo um “sequestro violento da tripulação”, que foi, ao contrário, respeitosamente hospedada por famílias locais. A ação durou quase um mês e terminou com os barcos sendo queimados com toda a madeira dentro.

O legado desse protesto é ambíguo. Embora tenha chamado a atenção para o problema da exploração ilegal de madeira e outros recursos na região, não houve uma resolução concreta e as comunidades ainda vivem ameaçadas. O território ainda é vítima de exploração ilegal; e o Estado e a mídia conseguiram colocar grupos locais uns contra os outros, promovendo fortemente a ideia de que a exploração dos recursos naturais poderia oferecer emprego e prosperidade às populações locais. A atual tensão na região torna quase impossível o trabalho dos comunicadores locais, pois os jornalistas comunitários se tornam alvos cada vez que criticam os projetos extrativistas ou tornam visível a atividade ilegal dos empreendimentos.
O superintendente da Polícia Federal brasileira afirmou que Phillips “estava no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada”, tentando explicar o assassinato do jornalista britânico como uma infeliz coincidência. O que não pode ser explicado tão casualmente é por que tantas comunidades na Amazônia, no Brasil e em outros países, precisam encontrar suas próprias maneiras de proteger a si mesmas e a um tesouro natural vital. Alguns analistas disseram que, se não fosse o assassinato de um jornalista britânico, o assassinato de Pereira teria passado completamente despercebido. Famílias das vítimas e organizações da sociedade civil estão pedindo justiça para Phillips e Pereira. Para que haja justiça, porém, deve haver um reconhecimento fundamental da validade e relevância da histórica luta local para proteger a Amazônia, e uma profunda e urgente mudança cultural e política para apoiá-la.
A esposa de Phillips declarou que seu conhecimento sobre a Amazônia o levou a entender que o pescador ilegal, o garimpeiro peneirando barro, na ponta da linha, são igualmente vítimas, frequentemente brutalmente explorados por causa de seu desespero de alimentar suas próprias famílias. Líderes de movimentos populares na Amazônia estão constantemente lembrando que há pessoas convivendo com florestas, rios e animais. Muitos estão prontos e agindo para proteger todos esses tesouros e farão mais se as autoridades nacionais e a comunidade internacional associarem políticas de proteção ao território com apoio à população local, para que esta não fique vulnerável a empresários predatórios e políticos demagógicos. Propostas como a Kawsac Sacha – A Declaração da Floresta Viva – e a Iniciativa Amazônia que Queremos reúnem soluções indígenas e científicas para viabilizar a economia da floresta em pé. Elas deveriam ser levadas em consideração em todas as decisões sobre a Amazônia.