Em agosto de 2022, Gustavo Petro assumiu a presidência da Colômbia sob uma onda de otimismo frente à possibilidade de mudança. Pela primeira vez na história moderna, os colombianos apostaram em um candidato de esquerda, pondo fim à hegemonia da centro-direita no país, principalmente do uribismo, que dominou a política nacional durante grande parte do século 21.
Essa era a oportunidade de diminuir a enorme brecha de desigualdade que faz da Colômbia o país com a pior concentração de renda da América Latina e que levou milhares de colombianos às ruas, durante meses, para protestar contra as consequências das políticas neoliberais que moldaram o política do país.
Mas, após um ano no poder, o governo Petro foi marcado mais por escândalos midiáticos do que por avanços em sua ambiciosa agenda progressista. Assim, parece que o presidente colombiano passou mais tempo fazendo relações públicas do que realmente governando. O último escândalo, envolvendo seu filho Nicolás, volta a levantar suspeitas sobre o financiamento eleitoral do Pacto Histórico, coalizão que levou o Petro ao poder e questiona a governança do Petro.
No entanto, para muitos analistas, Petro é vítima de lawfare da elite política à qual se opôs, que está usando as acusações contra o presidente como uma cortina de fumaça para impedir a aprovação de suas importantes reformas progressistas.
Escândalos
Em 29 de julho, Nicolás Petro, filho mais velho do presidente, foi preso sob acusações de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro relacionados à campanha presidencial de Petro. Nicolás admitiu ter aceitado dinheiro de um ex-traficante, que a princípio alegou ter sido usado apenas em benefício próprio. Mais tarde, porém, Nicolás admitiu ter destinado parte do dinheiro à campanha de seu pai sem declarar.

O caso levanta questões sobre o financiamento da campanha de Petro, que ganhou as manchetes em junho, quando a revista Semana - que faz oposição ao presidente – publicou áudios de Armando Benedetti, ex-embaixador colombiano na Venezuela que participou ativamente da campanha presidencial de Petro, nos quais ele ameaça revelar ter aceitado dinheiro ilegal para a campanha. Não está claro quem vazou os áudios, que Benedetti alega terem sido manipulados.
Nos áudios, enviados a Laura Sarabia, então chefe do gabinete presidencial, Benedetti mostra insatisfação com sua posição no governo, sugerindo que esperava mais poder. O caso Benedetti é complexo, com ingredientes dignos de novela, como seu vínculo com a babá de Sarabia, que participou da eclosão da crise após ser acusada de roubar dinheiro de Sarabia.
O colapso da coalizão
Dessa forma, os escândalos em torno da presidência vão muito além da política. Com os áudios de Benedetti, o Congresso suspendeu os debates sobre as reformas propostas por Petro que poderiam ampliar o acesso à saúde, ao trabalho digno e à previdência.
A coalizão de Petro, já em situação delicada depois que partidos de centro e centro-direita romperam com o Pacto Histórico em abril por divergências sobre projetos de lei, ficou ainda mais fragilizada com a possibilidade de ruptura de partidos de centro-esquerda. “Não é que queiramos abandonar o barco no primeiro problema, mas é que, depois de analisar os últimos fatos de um possível financiamento que parece opaco, a possibilidade deve ser discutida”, disse Cathy Juvinao em entrevista ao El País.
Assim, sua relação com o Legislativo parece cada vez mais difícil, o que aumenta o impasse que já vem dificultando a governabilidade do Executivo.
Petro denuncia tentativa de 'golpe brando'
As acusações contra Petro são sérias, mas a reação política parece exagerada dado o contexto da Colômbia, onde acusações de financiamento ilegal de campanha são a regra e não a exceção.
A Colômbia não teve presidente eleito neste século que não tenha sido acusado de utilizar fundos ilegais nas suas campanhas eleitorais.
O antecessor de Petro, Iván Duque, não só foi acusado de desviar dinheiro público para sua campanha de 2018, mas também está sendo investigado por suposta fraude eleitoral e tráfico de votos em conspiração com um suposto traficante de drogas assassinado no Brasil.
A conspiração também teria incluído Álvaro Uribe, presidente entre 2002 e 2010 e mentor de Duque, que teve investigação aberta contra ele em março de 2020 e foi preso preventivamente em agosto daquele ano.
O antecessor de Duque, Juan Manuel Santos, que também venceu a eleição como o candidato uribista, esteve envolvido no mega-escândalo de corrupção da construtora brasileira Odebrecht, que admitiu ter financiado de forma ilegal a campanha do ex-presidente. Em 2017, Santos reconheceu ter recebido os pagamentos.
Ou seja, a Colômbia não teve presidente eleito neste século que não tenha sido acusado de utilizar fundos ilegais nas suas campanhas eleitorais. A maneira como a mídia tradicional colombiana cobriu as investigações do financiamento da campanha do Petro é completamente desproporcional em comparação aos casos dos últimos três presidentes.
Assim, é difícil acreditar que a elite política colombiana esteja de fato horrorizada com as acusações contra Petro. Para muitos analistas, os escândalos em torno do atual governo são um pretexto para as forças políticas colombiana evitarem as reformas progressistas do presidente por meio do Judiciário, uma tática conhecida como lawfare.
Para Petro, a oposição age de forma antidemocrática. “Nossos rivais políticos foram rápidos em registrar queixas contra mim na comissão de acusações. No entanto, em nenhuma entrevista ou áudio foi demonstrado que cometi um crime", argumentou no Twitter após o escândalo de Benedetti. "Esta é uma simples tentativa de golpe brando para travar a luta contra a impunidade", disse ele.
Embora a declaração de Petro possa soar dramática, as elites latino-americanas têm um extenso histórico de uso do Judiciário e do Legislativo para contornar o Executivo, o poder que mais claramente representa o voto dos cidadãos em nossas sociedades presidencialistas. O Peru é o caso mais significativo deste século, com uma longa lista de presidentes depostos, um após o outro, por um Congresso dominado pelo fujimorismo que não consegue ganhar a presidência nas urnas.
A possibilidade de Petro não terminar seu mandato, ou de não conseguir de fato governar, é provável. Mas essa realidade se deve menos aos supostos crimes eleitorais ocorridos do que à incapacidade das forças políticas dominantes de aceitar os interesses dos cidadãos, que saíram às ruas para manifestar seu apoio às reformas do Petro.
