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Inelegibilidade de Bolsonaro é uma vitória democrática, mas extrema-direita segue forte

O ex-presidente se tornou um risco para o movimento. Tê-lo como influencer pode valer mais do que como candidato

Jair Bolsonaro de perfil contra a luz
Em 30 de junho de 2023, Jair Bolsonaro se tornou inelegível, forçando novo capítulo para a extrema-direita
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A decisão do Tribunal Superior Eleitoral de declarar Jair Bolsonaro inelegível até 2030 garante que o ex-presidente não voltará ao poder nas eleições de 2026. A decisão marca uma vitória para as instituições democráticas após quatro anos de tentativas incansáveis ​​de enfraquecê-las durante seu governo.

A retirada de Bolsonaro do xadrez político – que decorre de acusações de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação para conspirar contra o sistema eleitoral durante reunião com embaixadores em julho de 2022 – é um duro golpe para Bolsonaro, mas não tira a extrema-direita do jogo.

Bolsonaro como peça da extrema-direita

O movimento conservador no Brasil não surgiu com Bolsonaro. O processo de polarização do país é antigo e multifacetado, mas ganhou força em 2013 diante da insatisfação generalizada demonstrada pela população durante as “jornadas de junho” durante a presidência de Dilma Rousseff.

O movimento conservador continua articulado e continua dependendo de alguém como Bolsonaro para promovê-lo

Após dois mandatos de crescimento econômico e social no governo de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2010, que coincidiu com o boom das commodities, Dilma assume o poder em um país mais empobrecido e com cidadãos descontentes. O cenário era perfeito para a oposição. Aos poucos, aos grupos democráticos nas ruas juntaram-se movimentos de direita que exigiam a saída da presidente. Assim, os conservadores cooptaram os protestos, ganhando força, visibilidade e poder de organização.

Em apenas três anos, forças de extrema-direita conseguiram derrubar Dilma, promovendo um processo de impeachment que muitos acreditam equivaler a um golpe. Na esfera política, tiveram como expoentes figuras pouco carismáticas e impopulares como o ex-presidente Michel Temer e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que ilustram a política tradicional e o status quo brasileiros.

Esse movimento, já claramente organizado e articulado, precisava de um representante com poder de conquistar de votos. E o encontrou em Bolsonaro, um deputado federal de carreira que, embora medíocre como legislador, chamava a atenção por sua retórica agressiva e polarizadora. Figura até então pouco conhecida, Bolsonaro conseguiu galvanizar o povo, aproveitando-se de seu descontentamento com o governo para promover o crescente antipetismo diante da crise econômica do país e dos escândalos de corrupção durante os 13 anos de governo do PT.

O risco que Bolsonaro representa

O cenário atual é o mesmo. O movimento conservador continua articulado e continua dependendo de alguém como Bolsonaro para promovê-lo. E é aqui que estamos hoje. Durante seu governo e nos meses seguintes, Bolsonaro acumulou cerca de 600 processos na Justiça, incluindo investigações com grande probabilidade de terminar com a prisão do ex-presidente.

Manter Bolsonaro como líder do movimento significa correr o risco de vê-lo preso por um de seus muitos supostos crimes às vésperas das eleições de 2026

Bolsonaro tornou-se uma peça de alto risco para as aspirações da extrema-direita. Manter Bolsonaro no papel de líder do movimento significa correr o risco de vê-lo preso por um de seus muitos supostos crimes às vésperas das eleições de 2026, o que poderia favorecer o candidato da oposição – que foi o que aconteceu em 2018, quando o aliado Sergio Moro determinou a prisão de Lula meses antes das eleições.

Para a extrema-direita, que segue crescendo no Brasil apesar da derrota de Bolsonaro para Lula nas eleições de outubro, parece menos arriscado deixá-lo de fora, mesmo que o movimento esteja fortemente ligado a ele. A desqualificação de Bolsonaro de 30 de junho foi possível graças aos depoimentos de três de seus aliados, além de documentos produzidos por seu próprio governo.

Impossibilitar Bolsonaro de concorrer por semear dúvidas em relação às urnas eletrônicas no Brasil também parece ser o menor de dois males. Frente às eleições de outubro, 36% dos brasileiros desconfiavam do sistema eletrônico de votação, embora o Brasil nunca tenha registrado fraude. Assim, o afastamento de Bolsonaro tem o potencial de transformá-lo em um mártir, vítima do judiciário polarizador que o ex-presidente consistentemente atacou e acusou de parcialidade durante sua presidência.

Cerca de 45% dos brasileiros não confiam no Supremo Tribunal Federal, a maioria dos quais apoia Bolsonaro, segundo pesquisa de janeiro. A exclusão de Bolsonaro das eleições de 2026 pode ser interpretada por quase metade da população que votou nele em 2022 como uma manobra política e abuso do poder judiciário.

Aliás, os aliados de Bolsonaro já defendiam a ideia de deixá-lo fora das eleições de 2026 desde o resultado das eleições de 2022, preferindo que ele assumisse um papel de influencer de direita.

Os possíveis herdeiros políticos de Bolsonaro

Sua inelegibilidade pode servir a esse papel e fortalecer as candidaturas de figuras ligadas a ele, como sua mulher, Michelle Bolsonaro, que assumiu cargo político no PL, ex-partido de seu marido, em março deste ano. Michelle é uma figura popular nos círculos evangélicos, um dos pilares do movimento de extrema-direita no Brasil.

No entanto, muitos aliados de Bolsonaro têm mostrado preferência por outros nomes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ou o governador de Minas Gerais, Romeu Zema – ambos aliados de Bolsonaro. Tarcísio, em especial, mostra que tem potencial para liderar o movimento, uma vez que é o líder em popularidade digital entre os 27 governadores do país. Zuma é o terceiro mais popular Tarcísio inclusive supera Lula em algumas pesquisas sobre a aprovação dos dois políticos.

Grupos evangélicos sugerem uma possível aliança entre Tarcísio e Michelle para 2026, combinando assim duas faces distintas do bolsonarismo. “Lógico que sim, apoio uma candidatura de Michelle. Se eu estiver fora do jogo político, serei um bom cabo eleitoral", disse Bolsonaro antes da decisão do TSE sobre uma possível candidatura de sua esposa.

A inelegibilidade de Bolsonaro é uma vitória da democracia e das instituições brasileiras, que mostraram sua capacidade de resistência nos últimos anos. É também uma mensagem clara para as crescentes forças antidemocráticas no país, que agem como se estivessem acima da lei. Mas Bolsonaro é um dos expoentes da extrema direita, que criou raízes profundas na sociedade e fragmentou a população. Tirar Bolsonaro do jogo é só parte da solução.

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