Javier Milei calculava que sua melhor chance de triunfo seria ganhar no primeiro turno das eleições presidenciais argentinas. No entanto, sua vitória no segundo turno não chocou. Após a reação inesperada do peronismo no primeiro turno e a vitória de Sergio Massa, que obteve 37% dos votos sobre os 30% de Milei, as pesquisas mostravam que o resultado seria ajustado.
Muitos analistas previram que uma porcentagem significativa dos eleitores que optaram pela direita tradicional representada por Patricia Bullrich no primeiro turno, que obteve 24% dos votos, se juntaria às outras forças minoritárias em sua rejeição a Milei. Não poderiam votar nesse louco, argumentaram. Massa, candidato do partido governista, tentou justificar sua performance como ministro da Economia que não conseguiu conter a inflação e melhorar os indicadores econômicos quando o kirchnerismo, alarmado com os custos eleitorais da crise econômica, tentou remediar a situação nomeando um político com um longo histórico e uma reputação de confiabilidade e boa administração. Durante a campanha, Massa tentou se distanciar o máximo da gestão do governo atual, enquanto Milei tentou diluir suas propostas mais polêmicas e firmou uma aliança com a direita tradicional, promovida pelo ex-presidente Mauricio Macri.
Essa aliança da direita com a extrema-direita funcionou nas urnas, com uma vitória esmagadora de 12 pontos e 3 milhões de votos para Milei sobre Massa (56% contra 44%), refletindo uma transferência quase automática de votos conservadores de Bullrich para o candidato libertário. A questão agora é: prevalecerá um conservadorismo pragmático ou a política de mudança radical proposta por Milei? À luz do que aconteceu nos Estados Unidos com Donald Trump e no Brasil com Jair Bolsonaro, a chance de o extremismo do presidente eleito prevalecer são altas, embora nem os EUA nem o Brasil tenham enfrentado um desequilíbrio macroeconômico do calibre do da Argentina (o FMI teve que intervir 22 vezes na economia argentina desde 1958), que atualmente vive com uma taxa de inflação anual de 143% e uma dívida de US$ 44 bilhões com o FMI. Milei declarou que não haverá "gradualismo" e que implementará seu plano de choque imediatamente.
A primeira reação dos mercados financeiros à vitória de Milei em Wall Street foi positiva, e as notícias sobre a privatização de grandes empresas, como a petrolífera YPF e os meios de comunicação públicos, geraram expectativas. Mas a incerteza é grande. Se Milei tentar levar a cabo seu plano-bandeira de dolarizar a economia, os detentores de pesos terão de convertê-los em dólares antes que os controles de capital sejam suspensos. De acordo com o Financial Times, isso será seguido por uma grande desvalorização que terá um efeito devastador sobre a relação entre a dívida e o PIB, que já é muito negativa.

Os primeiros dias do curto período de transição que se inicia (a entrega oficial da presidência ocorrerá em 10 de dezembro) serão muito complicados. A primeira faísca veio na própria noite da eleição, quando Massa, em seu discurso da derrota, feito antes mesmo de os números oficiais serem divulgados, disse que a responsabilidade pela situação econômica passava a ser do vencedor: "A partir de amanhã, a tarefa de proporcionar certeza e transmitir garantias sobre o funcionamento político, social e econômico é responsabilidade do presidente eleito. Esperamos que o faça", disse. Duas horas depois, quando Milei leu seu discurso de vitória, disse: "Queremos pedir ao governo que seja responsável, que entenda que uma nova Argentina chegou e que aja de acordo. Que assumam a responsabilidade até o final do mandato do 10 de dezembro".
O prognóstico de curto prazo para a situação é muito negativo. Matías Bianchi, diretor do Asuntos del Sur, think tank latino-americano com sede em Buenos Aires, disse ao democraciaAbierta: "Com a vitória de Milei, a crise econômica não desaparece. Se o problema é que as pessoas não apostavam no peso argentino, agora provavelmente irão contra o peso, o que possivelmente levará à hiperinflação" argumenta. A impressão de que não existem acordos entre o governo cessante e Milei gera muitas incógnitas. "Milei quer que o governo cessante assuma a desvalorização e o governo cessante quer que Milei a assuma. Agora, o problema não é quem vai assumir, mas como isso vai acontecer e qual o preço", diz.
Enquanto isso, na sexta-feira anterior às eleições, a taxa de câmbio oficial do dólar estava em 353 pesos, a do dólar turismo em 700 pesos e a do dólar blue (do mercado negro) ultrapassava os 950 pesos. A reação dos mercados se mostra volátil – o peso oficial está estável, mas o dólar blue subiu para 1075 pesos. Enquanto isso, Milei afirma que as reformas estruturais serão imediatas e drásticas, como a liberalização total da regulamentação dos aluguéis, que é deixada estritamente aos critérios da oferta e da procura.
A vontade, declarou ele em seu primeiro discurso como presidente eleito, é acelerar as reformas. "Não haverá gradualismo, não há espaço para indiferença, não há espaço para meias medidas", disse. Se não avançarmos rapidamente com as mudanças estruturais de que a Argentina precisa, estaremos caminhando diretamente para a pior crise de nossa história. "A questão é que Milei só deixará de fazer o que não pode, ou porque não tem o apoio do Congresso, ou por qualquer outro motivo.

A fragilidade política do novo presidente é enorme. Seu partido, La Libertad Avanza, que comemorou seu segundo aniversário em julho, tem apenas 39 membros do Congresso, de um total de 257, e sete senadores, de um total de 72. No Congresso, ele pode fazer um pacto com os conservadores do PRO de Macri e outros, mas no Senado essa aliança não tem maioria. Em um sistema bicameral como o da Argentina, o Senado tem o poder de vetar as leis que vêm do Congresso. Além disso, não possui nenhum dos 24 governadores, de modo que seu poder territorial é atualmente nulo. Em um modelo presidencialista como o da Argentina, e com um presidente colérico e emocionalmente instável que ganhou o apelido de "El Loco", um Legislativo baseada em pactos para promover reformas estruturais de longo alcance parece quase inviável.
Diante de tanta vulnerabilidade estrutural, Milei tem apenas uma bala de prata: ou ele controla imediatamente a hiperinflação e envia sinais tranquilizadores aos mercados, ou a poderosa máquina do peronismo, com sua enorme capacidade de mobilização social, começará a pressionar de forma perturbadora. Nesse momento, veremos quanto de seu apoio eleitoral do último domingo se traduzirá em apoio social. Ao mesmo tempo, se ele cumprir suas promessas mais ousadas, seus dias estariam contados. Em uma coluna de emergência na noite da eleição, Juan Elman, colaborador do openDemocracy, escreveu: "Um exemplo recente dos limites dos modelos puros e baseados em ideologia se deu no ano passado no Reino Unido, quando a primeira-ministra Liss Truss implementou um brutal corte de impostos de inspiração thatcherista. Ela durou menos de dois meses no cargo".
Buenos Aires provavelmente se tornará a nova meca dos populistas radicais de extrema-direita. O presidente eleito rapidamente convidou para a sua tomada de posse Santiago Abascal, presidente do partido espanhol de extrema-direita Vox a e promotor do Fórum de Madrid, que reúne partidos e organizações de extrema-direita da América Latina e inclui membros do Partido Republicano de Donald Trump.
Enquanto isso, esses tensos estágios iniciais da transição moldarão o futuro da presidência sem precedentes da Argentina. Os vizinhos brasileiros gostam de dizer que entender sua dinâmica política é difícil porque "o Brasil não é para amadores". Do jeito que as coisas estão, pode-se dizer que entender a política argentina hoje, com Milei no comando, é ainda mais complicado, porque "a Argentina é apenas para psicanalistas".
