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O neoliberalismo é incapaz de solucionar a crise climática

Ações radicais são essenciais para impedir a transição do aquecimento global para a ebulição global

Bombeiros combatem incêndio florestal
Bombeiros combatem incêndio florestal perto da cidade de Valparaíso, no Chile, em fevereiro de 2022 - Lucas Aguayo Araos/Anadolu Agency via Getty Images
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Eventos climáticos extremos aumentaram em frequência e intensidade na última década, com o último mês vendo uma rara combinação de problemas na América do Norte, Mediterrâneo e Oriente Médio, norte da China e Coreia do Sul. Para os britânicos, houve o choque adicional de ver turistas fugindo de incêndios florestais, especialmente na Grécia.

Todos esses eventos fazem parte dos estágios iniciais do colapso climático, que se agravará progressivamente a menos que o mundo faça uma transição rápida e revolucionária para uma economia de baixo carbono, mas há poucos indícios de que as lideranças políticas estejam minimamente preparadas para isso. Pelo menos o secretário-geral da ONU, António Guterres, está usando uma linguagem diferente, principalmente o uso de “ebulição global” em vez de "aquecimento global" em seus alertas sobre o que está por vir.

Ele é uma exceção. A opinião pública em geral ainda não está ciente das grandes mudanças necessárias. Todos os alertas dos cientistas do clima, juntamente com a evidência de nossos próprios olhos, parecem valer pouco enquanto nos movemos em direção a um planeta instável, caótico e superaquecido.

Por quê? Mais importante, por que a descarbonização radical não está acontecendo, embora saibamos que é possível? E, mais importante ainda, como as coisas podem ser revertidas a tempo?

Vamos começar com a inação. Aqui, três elementos interagem. Primeiro, estamos falando de mudanças fundamentais em como vivemos, não apenas no Reino Unido ou na Europa Ocidental, mas em todo o mundo. O resultado seria um mundo mais limpo, seguro e saudável, mas envolveria anos de grandes mudanças – o que é muito para as pessoas comuns aceitarem. Não podemos subestimar esse fator. As comunidades mais pobres, em particular, acharão muito difícil lidar com as mudanças, enquanto as elites mais ricas em todo o mundo provavelmente manterão a crença ingênua de que sua riqueza os manterá seguros.

Em segundo lugar, o que deve ser feito vai diretamente contra a forma como a economia funciona atualmente. O sistema fundamentalista de mercado está enraizado na competição e na falsa crença de que os milhões de pessoas deixadas para trás se beneficiarão do gotejeamento gerado pelos ricos e ficarão contentes. Acredita que, embora o governo central, em parceria com a riqueza, possa deter as alavancas finais de controle, deve ter um papel mínimo no funcionamento do mercado. A cooperação é um anátema para esse modo de pensar, mas a cooperação é essencial para evitar a ebulição global.

Os neoliberais veem essa abordagem fundamentalista de mercado como necessária para uma sociedade ordenada e estável e acreditam que, se os milhões de pessoas marginalizadas não atrapalharem, tudo ficará bem. Na raiz, está a crença de que a elite sabe o que é melhor.

Na Grã-Bretanha, havia o risco inesperado de um governo trabalhista seriamente radical assumir o poder em 2017. Felizmente para os neoliberais, essa realidade foi evitada por pouco e, desde então, a ameaça da esquerda trabalhista foi total e verdadeiramente reprimida.

Apesar disso, o sistema ainda tem preocupações mais amplas sobre respostas potencialmente violentas das margens. Em muitos países, novas leis foram introduzidas e outras foram reforçadas, assim como a polícia e as forças de segurança foram mais bem equipadas e treinadas para lidar com a dissidência pública. Pesadas sentenças de prisão, mesmo para pequenos atos de ação direta não-violenta, estão agora disponíveis para serem usadas.

O problema é que um sistema de economia de mercado simplesmente não pode agir rápido o suficiente para lidar com o colapso climático. O sistema sabe disso, então acha preferível apoiar a opinião de quaisquer “especialistas” – que são muitos – que ainda negam que haja um problema.

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Isso nos leva ao terceiro ponto: a propaganda implacável da indústria de combustíveis fósseis e dos think tanks associados há mais de meio século para negar o problema, mesmo quando seus próprios cientistas dizem o contrário. Em um mundo mais justo, existiria o crime de homicídio corporativo global. Mas no mundo real não há.

De modo geral, as forças anti-colapso climático estão excepcionalmente bem entrincheiradas na sociedade e têm a tarefa fácil de convencer as pessoas de que nenhuma ação é necessária. Não precisam de muito. Basta dizer que a ação custará caro. Os políticos jogam com isso, especialmente próximo às eleições. Isso pode até dar frutos eleitorais. O comportamento atual do governo de Rishi Sunak da Grã-Bretanha é um exemplo. O primeiro-ministro defendeu que a política climática deve ser “proporcional e pragmática”, após uma vitória nas eleições em um eleitorado onde o candidato conservador se opôs à extensão do esquema de baixas emissões da ULEZ .

Então, para onde vamos? Uma possibilidade de resposta é encarar a questão atual como duas tendências globais muito amplas que estão em vias de convergir. Quando finalmente se encontrarem, haverá uma chance de mudança radical porque não haverá alternativa.

Uma dessas tendências, como vimos, é um sistema estabelecido em suas formas e altamente improvável de mudar. As emissões de carbono continuarão aumentando, as temperaturas chegarão bem acima de 1,5°C e aqueles com poder colherão os frutos, pelo menos no curto prazo.

A outra tendência é muito mais positiva e tem três elementos.

A ciência do clima avançou aos trancos e barrancos no último meio século. A comunidade científica está muito mais confiante em suas expectativas de colapso climático e, finalmente, diz isso sem rodeios. Essa mudança bem-vinda também tem mais força devido à maneira como o início do colapso climático frequentemente excede os alertas dos modelos preditivos.

A segunda tendência é, finalmente, uma crescente consciência pública de que as coisas devem mudar – e mudar rapidamente. O poder dos movimentos ambientais em muitos países é notável, tanto que muito mais pessoas estão dispostas a arriscar a prisão em nome do futuro.

Finalmente, numerosos desenvolvimentos impressionantes na tecnologia de energia renovável reduziram o custo da eletricidade por margens enormes, deixando-a bem abaixo da paridade da rede em preço com combustíveis fósseis.

Isso nos deixa apenas duas grandes questões, das quais dependem tantos futuros, especialmente de nossos filhos e netos. Quando a convergência acontecerá e com que rapidez as mudanças podem ser feitas?

Se demorar mais 20 anos, até o começo da década de 2040, a tarefa será quase intransponível, com a ação acontecendo apenas após inúmeras catástrofes terríveis e diante da raiva amarga dos bilhões de pessoas marginalizadas. Se a mudança ocorrer antes de meados da década de 2030, as perspectivas serão melhores, mas quanto mais tarde a convergência, maior o desafio.

É, portanto, uma questão de quanto mais cedo melhor. Assim, o resto da década de 2020 deve ser um período de intenso ativismo sempre e onde for possível. Seja por persuasão, argumento, ação direta não violenta ou outros meios, é possível convencer um número suficiente de pessoas de que uma ação radical é essencial antes que a transição do aquecimento global para a ebulição global corra o risco de se tornar irreversível.

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