Na mesma semana em que Luiz Inácio Lula da Silva aterrissou em Dubai à frente da maior delegação da COP28, o presidente anunciou que o Brasil entraria para a OPEP+. A contradição da tentativa de Lula de se posicionar como líder na luta contra a crise climática ao mesmo tempo em que se alinha com os países exportadores de petróleo expõe os grandes obstáculos nessa luta.
A pobreza que assola a América Latina, cujas riquezas naturais e ecossistemas únicos a transformam em um importante personagem na corrida para mitigar os efeitos do aquecimento global, está intrinsecamente relacionado à exploração de seus recursos naturais. O extrativismo na região, processo que no Brasil começou há mais de 500 anos com o ciclo do pau-brasil iniciado em 1502, deixou como principal legado economias baseadas nessa mesma vocação, promovendo uma concentração de riqueza que faz da América Latina a região mais desigual do mundo.
Essa dicotomia moldou o cenário sociopolítico da região, dando origem a um poderoso movimento de esquerda caracterizado por governos que usaram o boom das commodities no começo do século para melhorar a vida de milhões de seus cidadãos. Durante seu primeiro governo (2003-2011), Lula, um dos expoentes dessa Onda Rosa, tirou pelo menos 20 milhões de brasileiros da pobreza através de programas sociais, que foram possíveis parcialmente devido ao crescimento econômico.
Assim, a luta contra a pobreza – que atinge um quarto da população latino-americana – continua sendo a prioridade para governos de esquerda da região, com muitos ativistas sociais e acadêmicos defendendo que o desenvolvimento é necessário para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. “A militância ecológica não pode divorciar-se da luta social”, argumentou Eduardo Galeano em seu ensaio de 2011, “Quatro frases que fazem o nariz do Pinóquio crescer”.
Petróleo ainda é necessário – mas transição é possível
A indústria de petróleo e gás representa 13% do PIB do Brasil, receita indispensável para os brasileiros. Já que as apostas pelo decrescimento ainda estão muito distantes das realidades de necessidades básicas urgentes da América Latina, o crescimento econômico continua sendo fundamental.

No entanto, continuar a apostar nos combustíveis fósseis, como Lula vem fazendo, não apenas deixaria o Brasil preso no mesmo ciclo histórico de exploração que gerou toda essa desigualdade e pobreza, mas também abriria mão de uma oportunidade única.
O mundo está prestes a embarcar em uma transição energética que depende de minerais abundantes na América Latina, responsável por 40% da produção global de cobre e de 35% da de lítio. Apesar da alta produção, a região ainda alberga reservas pouco exploradas desses minerais, além de reservas de grafite, níquel, manganês e de terras raras.
Frente a esse cenário, a América Latina será um importante player da transição energética – de um jeito ou de outro. Um jeito é o que já conhecemos. Os países abrem suas portas para as multinacionais e adicionam esses minerais a sua longa lista de commodities de exportação, dando continuidade assim a seu status de exportadores de matéria-prima e ajudando a acelerar ainda mais a degradação do meio ambiente que contribui para a crise climática. O interesse renovado da Europa em restabelecer laços com a América Latina não é casualidade.
O outro jeito envolveria investir em tecnologia e abrir caminhos para uma verdadeira transformação energética , o que traria um crescimento econômico a longo prazo de alcance muito mais amplo. Segundo o Banco Mundial, o Brasil precisaria investir 0,8% do seu PIB anual até 2030 para concretizar esse plano. “Adicionar mais energia limpa não seria mais caro para o Brasil do que os planos atuais para expandir a geração de combustíveis fósseis”, defende o Banco Mundial em seu “Brasil: Relatório sobre Clima e Desenvolvimento para o País”, de maio de 2023.
Ambições petrolíferas de Lula preocupam
Lula entende a necessidade e a oportunidade que tem na frente. “Essa produção de biocombustível, essa transição energética que o mundo está tocando, é uma oportunidade ‘sui generis’ para o país,” argumentou o presidente em setembro. “O Brasil vai se transformar em algo muito importante para o planeta Terra”, pontuou.

No entanto, as frágeis democracias latino-americanas – guiadas por presidencialismos de culto à personalidade – vivem de eleição a eleição, o que dificulta projetos de longo prazo. Uma transição energética se estenderia por diversos governos e líderes governam pensando na reeleição. A receita do petróleo é garantida, o que ajuda a manter a economia em dia – e consequentemente a popularidade de Lula.
Mas Lula também tem muito a ganhar se conseguir posicionar o Brasil como potência de energia renovável. E ele assumiu a liderança do país em um momento propício. Mais de 80% da eletricidade do país provém de fontes renováveis, frente a uma média mundial de 27%, como aponta relatório do Banco Mundial. O Brasil também é um dos principais geradores de empregos no setor de energia renovável e um dos líderes na instalação de usinas eólicas.
O desafio de Lula é conciliar a necessidade de manter a receita do petróleo ao mesmo tempo em que explora o potencial energético do país nesse momento crucial na luta contra a crise climática.
Mas seus planos de elevar o Brasil de oitavo a quarto maior produtor de petróleo e o recente ingresso no grupo de aliados da OPEP apontam para mais do que apenas uma manutenção do setor. Se Lula continuar investindo na expansão do petróleo, certamente compromete suas ambições de tornar o Brasil na “Arábia Saudita da energia verde” nos próximos 10 anos.
