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Seca, incêndios, inundações: crise climática assola a América Latina

Seca prolongada na Argentina, Chile e Uruguai cria condições para incêndios florestais. Já o Brasil sofre com inundações

Homem se vira para o fogo na mata
Um voluntário ajuda a combater incêndio florestal em El Patagual, no Chile, em 21 de fevereiro de 2023 - Guillermo Salgado/Getty Images
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Incêndios descontrolados, secas implacáveis, um país inundado e um ciclone devastador mostram que a crise climática veio para ficar na América do Sul. Agora, o fenômeno climático El Niño traz novas ameaças.

Brasil, à mercê da água

No primeiro semestre de 2023, o Brasil vivenciou fortes chuvas que causaram inundações em todo o país. As chuvas deixaram seis mortos, afetando cerca de 36 mil famílias, das quais mais de 7,5 mil tiveram que deixar suas casas devido a enchentes e deslizamentos de terra. Muitas comunidades ficaram isoladas, com acesso possível apenas por barco ou helicóptero devido ao transbordamento de vários rios.

O sul do país também foi atingido por ciclone extratropical em junho, deixando pelo menos 11 mortos e 20 desaparecidos. A passagem do ciclone na região da fronteira com Argentina e Uruguai causou deslizamentos de terra, mais inundações e o desabamento de pontes. Além disso, há previsão de novos ciclones para a região.

Cientistas afirmam que as enchentes e os ciclones não são fenômenos comuns e se devem às mudanças climáticas, que tornaram o inverno e as chuvas cada vez mais intensos.

Ao longo do ano, o Brasil foi vítima de climas extremos. Em apenas 24 horas em fevereiro, São Sebastião, destino turístico no literal paulista, recebeu mais de 680 mm de chuva (mais do que o total que caiu no Chile em 2023), mais do que o dobro do esperado para o mês – e o maior volume acumulado em um dia na história do Brasil.

No Brasil, 9,5 milhões de pessoas vivem em áreas de risco de deslizamentos ou inundações

A ação do governo frente ao ciclone foi insuficiente. Ele notificou a população com mensagens de texto, mas não foi eficaz em tempo hábil. Agora, instalou sirenes em áreas de risco e promoveu a construção de mais de 4 mil casas para os desabrigados.

No Brasil, 9,5 milhões de pessoas vivem em áreas de risco de deslizamentos ou inundações.

Em resposta às enchentes, o governo destinou R$ 3,8 milhões para cestas básicas e restaurantes que servem abrigos de vítimas em mais de 20 municípios.

Incêndio devasta Chile, Argentina e Uruguai

Desde 30 de janeiro, uma onda de calor assola o Chile, criando as condições para devastadores incêndios florestais na região centro-sul do país. Os incêndios, maioritariamente de origem humana, surgiram em um contexto caracterizado por vários anos de carência hídrica e verões com temperaturas recorde.

No Chile, é cada vez mais comum registrar incêndios florestais nos meses de verão (este ano foram pelo menos 406), dos quais vários foram do tipo "alerta vermelho". Este ano, os incêndios já afetaram cerca de 450 mil hectares, o que equivale a duas vezes a área de Luxemburgo.

Devido aos incêndios, 26 pessoas perderam a vida e quase 8 mil foram afetadas pela perda de moradia ou meios de subsistência. A agroindústria registrou 11.656 produtores agrícolas afetados, 5.800 hectares de lavouras devastados e 33.909 animais mortos.

Nos últimos três anos, a precipitação média ficou abaixo dos 390 mm, menos da metade da média de, por exemplo, 1997, que foi de 872 mm.

Os incêndios no Uruguai podem superar os de 2022, que devastaram 36 mil hectares — recorde histórico do país

A catástrofe chilena não é nova. Em 2017, 11 pessoas morreram e 467 mil hectares foram perdidos devido a incêndios. Como resultado do aquecimento global, as condições climáticas no Chile são cada vez mais extremas e propensas a incêndios massivos. O Estado chileno se propõe agora a criar uma política de adaptação às mudanças climáticas que evite que os incêndios se espalhem com a velocidade com que o fizeram nos últimos anos. Dentro desta tarefa também está modificar completamente o modelo operacional da indústria florestal chilena. O país é o segundo maior produtor de celulose da América Latina, com mais de 3 milhões de hectares de monoculturas de pinus e eucalipto, fato que impacta na disponibilidade de água, vocação do solo e propagação de queimadas.

Embora até maio de 2023 o governo, por meio de vários ministérios e entidades, tenha conseguido enfrentar o caos causado pelos incêndios e pela seca, ainda há necessidade de um programa ou política pública com uma visão de longo prazo dos efeitos do aumento da temperatura no país.

No caso da Argentina, os incêndios florestais começaram em outubro de 2022 e duraram até meados de 2023. Entre maio e junho, foram mais de 4.675 alertas de incêndio na plataforma Global Forest Watch. Além disso, o fogo destruiu quase 100 mil hectares de floresta, o que se somaria aos 1,8 milhão perdidos em 2022.

A Argentina está passando por uma seca intensa, que contribuiu para que as fontes de incêndios se espalhassem de forma acelerada. Desde 2019, grande parte do território argentino sofre um significativo estresse hídrico, com 2022 sendo classificado como um dos anos mais secos desde 1961.

Um relatório do Serviço Meteorológico Nacional mostrou que, no início de 2023, as temperaturas extremas se concentraram na Patagônia e depois se deslocaram para o norte do país. O relatório deixa claro que, pouco a pouco, esse calor extremo atingirá toda a Argentina.

Os incêndios ambientais no Chile vão além das mudanças climáticas
As chamas que vêm devastando florestas inteiras também são causadas pelo reflorestamento com espécies não nativas

Ao redor de 95% dos incêndios têm origem humana e os outros 5% são resultado das trovoadas que atingem a floresta. Na Argentina, um dos principais produtores mundiais de alimentos, a seca já atinge o campo há três anos consecutivos. Segundo um relatório da Bolsa de Valores de Rosario, a seca causou perdas de US$ 19 bilhões, o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2023. Da mesma forma, a situação provocou uma queda nas exportações de grãos, o que corrói as receitas tributárias do Estado provenientes da arrecadação de impostos.

A pecuária também foi afetada devido à diminuição dos alimentos disponíveis para os animais. Assim como no Chile, se os impactos da crise climática não forem analisados ​​para a criação de estratégias de longo prazo, a Argentina continuará sofrendo com os incêndios e a seca, que pode afetar sua já frágil economia.

O último país latino que registrou grandes incêndios florestais é o Uruguai. Segundo o Sistema Nacional de Emergências (Sinae), entre novembro de 2022 e março de 2023, o governo teve que intervir em 3.604 incêndios. Os incêndios já afetaram 26.261 hectares.

Um ponto chave para entender os incêndios no Uruguai é a seca generalizada que assola o país desde outubro de 2022. Soma-se a isso a baixa umidade do ambiente e os fortes ventos, fatores climáticos que colaboram para a propagação do fogo. Os incêndios deste ano podem superar os de 2022, que devastaram 36 mil hectares — recorde histórico do país.

No meio disso, a situação econômica do país se agrava: no primeiro bimestre de 2023, o governo de Luis Lacalle Pou registrou um aumento geral de preços de 2,57%, o que coloca o Uruguai como o quarto país com a quarta maior inflação acumulada da região, atrás apenas da Argentina, Venezuela e Colômbia.

A situação do Brasil, Chile, Argentina e Uruguai deve servir de alerta para os governos da região. Em 2023, a América Latina se concentra em seus importantes problemas econômicos, mas também deve estar atenta aos efeitos da crise climática que nesses quatro países começa a gerar o que é conhecido como "deslocados climáticos", ou seja, pessoas que precisam abandonam suas casas e modos de vida devido a situações climáticas extremas. É urgente criar estratégias de adaptação a longo prazo. Para a região, compensação e mitigação já não são suficientes.

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