Como nos casos do nazismo e do fascismo históricos, o bolsonarismo — a versão brasileira atualizada de ambos — é um movimento de extrema direita que apenas utiliza o cristianismo como propaganda política, mas que, na verdade, não tem qualquer identificação com os valores cristãos.
A imprensa brasileira tem gastado muito tempo debatendo o chamado “voto evangélico”, ou seja, prognosticando para qual dos candidatos à presidência — Lula ou Bolsonaro — irão os votos dos cristãos evangélicos, para quem iria esse voto e discutir e discutindo e reafirmando a tendência de estes votaremde acordo com os dogmas e a moral de sua religião, e não com as melhores propostas de governo apresentadas por seus candidatos.
Ora, sendo o Brasil um Estado laico, essa tendência eleitoral do cristão evangélicos deveria ser tratada no mínimo com assombro, e não normalizada (e até mesmo explorada) por parte de uma imprensa que se pense como democrática. Um Estado laico não tem paixão religiosa nem pode ser chantageado por esta; ele não tem religião nem defende nenhuma religião em particular, mas garante a todos os seus cidadãos e cidadãs o direito de professar a sua fé, qualquer; garante a todas e todos o exercício do direito de crer e de não crer.
O respeito à laicidade do Estado implicaria que, num processo eleitoral, os valores religiosos não deveriam estar em pauta, seja em campanhas é propaganda, seja na cobertura da principalmente.
Mas uma vez que estão em em pauta, a imprensa e os candidatos teriam a obrigação de informar aos cristãos evangélicos que eles nem sempre gozaram da liberdade de crença. Quando o Estado brasileiro tinha religião oficial – a Católica – os evangélicos eram discriminados e até perseguidos. Quem assegurou a liberdade de crença na Constituição de 1946 — mantida na Constituição de 1986 — foi um deputado ateu e comunista: o escritor baiano Jorge Amado.
A última coisa que um evangélico poderia fazer num processo eleitoral era definir seu voto com base em intolerância e racismo religiosos
Este dispositivo constitucional que garantiu o livre exercício das crenças no Brasil beneficiou as religiões de matriz africanas, mas, sobretudo, as igrejas evangélicoshistóricas e as neopentecostais.
Sendo assim, a última coisa que um evangélico poderia fazer num processo eleitoral era definir seu voto com base em intolerância e racismo religiosos.
Se pensarmos na etimologia da palavra evangélicos, concluiremos que estes são aqueles cristãos que crêem nos quatro evangelhos canônicos – os de Mateus, Lucas, Marcos e João – como textos inspirados por Deus. Ora, não só estes quatro textos bem como as cartas do apóstolo Paulo estão cheias estão cheias de referênciascontra a ganância e a favor dos pobres.
Bem, Bolsonaro fez um governo que beneficiou os ricos e muito ricos; fez com que estes ficassem mais ricos; fez um governo que acabou com as leis trabalhistas e que precarizou o trabalho em geral. Além disto, este governomanejou criminosamente a pandemia de Covid-19 de forma a matar os mais pobres, os já doentes, os indígenas e os idosos. Foram mais de 700 mil pessoasmortas por causa dessa necropolítica.
O governo Bolsonaro ensejou indireta ou diretamente a morte de indígenas pobres, isolados ou não, por meio do estímulo ao garimpo ilegal e ao tráfico de madeira na Amazônia.
Bolsonaro também enriqueceu pessoalmente e de maneira ilícita ao longo desses quatro anos igual que sus cuatro hijos.
Bolsonaro também enriqueceu pessoalmente e de maneira ilícita ao longo desses quatro anos, assim como seus quatro filhos.
Em resumo, Bolsonaro e o bolsonarismo, assim como o fascismo e o nazismo históricos, não tem qualquer identificação verdadeira com o que diz Jesus nos evangelhos ou Paulo em suas cartas.
Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nasceu na pobreza, assim como Jesus, em seus oito anos de governo, tirou o Brasil do mapa da fome e praticamente erradicou a miséria no país — miséria que retornou graças a Bolsonaro. Lula fez um governo que priorizouprincipalmente os mais pobres e os trabalhadores, as mulheres em especial. Lula semeia o amor e não usa a mentira como arma de destruição.
Ou seja, se comparamos Bolsonaro e Lula, podemos concluir que Lula está muito mais de acordo com os valores cristãos. Quem está, digamos, atendendo a todas as exortações dos evangelhos é Lula: a defesa dos humilhados, da justiça e da igualdade.
Senso assim, qual é mesmo a dúvida dos cristãos que querem votar de acordo com os seus valores?
A religião dos candidatos não deveria estar em pauta num Estado laico, mas já que está, uma imprensa honesta deveria dizer aos evangélicos a verdade: Lula é um verdadeiro cristão
Já Bolsonaro e bolsonarismo não passam daquilo que diz o evangelista Mateus dos fariseus: por fora, branco e parecendo impoluto por dentro, cheio de podridão e ossos.