As pessoas migram por razões complexas. Os regimes de fronteira cada vez mais rigorosos na Europa, América do Norte e Austrália obrigaram muitos migrantes a procurar segurança em outros destinos. O Brasil é um deles. Muitas pessoas da África Subsariana se voltaram para o Brasil quando todas as outras portas se fecharam, ou quando os procedimentos de obtenção de vistos para outros países prometiam mantê-las fechadas em lugares perigosos e de risco até ser tarde demais. Como um país internacionalmente bem conectado e territorialmente grande, o Brasil também atrai aqueles que procuram novas rotas para o Norte Global.
Nessa série de pequenos excertos anônimos, coletados e compilados pela organização de solidariedade para com migrantes Missão Paz em São Paulo, migrantes congoleses contam suas experiências no país em todas as fases das suas viagens migratórias. Para eles, o Brasil tem sido um porto seguro, um lugar de sofrimento contínuo e tudo o que acontece entre esses dois extremos.
O Brasil deveria ter sido um trampolim
"Não houve uma guerra propriamente dita, mas um 'conflito étnico'. Minha família faz parte de um grupo étnico que estava sendo atacado, então tivemos que fugir. Alguns de nós foram para os EUA, outros para a França. Não consegui obter um visto para ir com eles. Disseram que era mais fácil conseguir um visto para o Brasil e que, de lá, seria mais fácil ir para os EUA ou para a Europa. Mas quando cheguei aqui, vi que não era tão fácil assim. Por isso, fiquei.”
É melhor do que onde eu estava
"Minha família se opunha ao governo. Meus tios, meu pai, minha mãe... muitas ameaças aconteciam diretamente em casa. Venho de uma família humilde e tínhamos uma boa vida, mas devido à perseguição política deixei meu país quando era muito jovem. Antes de vir para cá, estive em Portugal, Angola e Moçambique. Pratiquei muito português em Moçambique e, como meu trabalho envolvia a venda de tecidos, costumava viajar muito para feiras de tecidos. Eu estava morando na Venezuela quando vim para cá para uma feira e decidi ficar.”
O primeiro país a abrir suas portas
"Eu não escolhi viver no Brasil. Nunca pensei que um dia iria viver fora do meu país. Mas estava em perigo: minha situação me obrigou a sair. Eu queria ir para os Estados Unidos porque falo inglês, mas é muito difícil ir para lá. Você precisa comprovar que tem uma conta bancária com fundos suficientes para obter um visto, e isso era impossível para mim. O Brasil foi o primeiro país que abriu suas portas, por isso vim. Não estou feliz. Só estou aqui procurando refúgio.”
Fugindo de uma guerra na minha própria casa
"Vim para o Brasil porque minha tia, irmã do meu pai, vivia aqui. Eu nunca conheci meu pai. Minha mãe se casou com outro homem, e minha vida não foi fácil com ele. Ele tentava fazer coisas sexuais comigo. Quando eu tinha 17 anos, minha mãe me disse para ir embora e procurar a família do meu pai. Ela viu que não ia dar certo com meu padrasto e queria me proteger. Não venho de uma guerra civil. Venho de uma guerra em casa.”
Missionários me ajudaram a escapar da mutilação genital
“Meu caso não era de violência doméstica. Era um problema religioso. Eu era uma pária na minha comunidade porque recusava a mutilação genital. Para escapar dessa situação, comecei a pesquisar países para onde fugir. Eu não sabia para onde ir. Eu sonhava em ir para a Nova Zelândia, Austrália ou Estados Unidos. Mas eu não tinha dinheiro. Não conseguia obter um visto para ir a esses lugares. Sou uma menina do interior; minha mãe é camponesa e não tínhamos dinheiro. Mas eu fazia parte de uma igreja em meu país, e havia alguns missionários brasileiros que disseram que poderiam me conseguir um visto. Foi assim que vim para o Brasil.”
Consegui uma bolsa de estudos aqui
"Embora eu venha de um país onde houve uma guerra civil, não posso dizer que vivi a guerra como muitas pessoas viveram. Eu era jovem quando minha família fugiu da zona de conflito. Em 2016, ganhei uma bolsa de estudos da embaixada brasileira. Eles as ofereciam a alunos com desempenho acima da média no ensino médio. Tivemos que fazer um teste e depois vir para o Brasil. Foi assim que eu vim para cá.”
Para acompanhar essa série, a Missão Paz também produziu um guia de apoio jurídico para migrantes no Brasil. O guia oferece conselhos úteis sobre uma série de questões – desde os direitos e estatuto de migração até como lidar com a xenofobia, o racismo e os crimes de ódio – bem como os contatos dos serviços de apoio aos migrantes no paíss