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‘Virou normal’: migrantes falam de racismo no Brasil

Depois dos ataques fatais a dois africanos em 2020 e 2022, os migrantes vivem com o medo constante de agressões

Protesto contra o assassinato do refugiado congolês Moise Kabagambe
Protesto contra o assassinato do refugiado congolês Moise Kabagambe, de 24 anos, em 2022 - Fabio Teixeira/ Agência Anadolu/ Getty Images. Todos os direitos reservados
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A legislação brasileira oferece proteção a refugiados e migrantes que não estão disponíveis em muitos outros países. No entanto, muitos migrantes – especialmente os da África Subsaariana – ainda lidam com o racismo e a xenofobia generalizados. Ataques racistas tiraram a vida de pessoas que buscavam segurança no Brasil, e houve várias tragédias nos últimos anos. Em 2022, um jovem congolês chamado Moïse Kabagambe foi morto em um quiosque no Rio de Janeiro. Em 2020, um angolano chamado João Manuel foi esfaqueado em São Paulo. Esses assassinatos abalaram a comunidade de migrantes no Brasil, e muitos vivem com o medo constante de assédio e ataques.

Discriminado por aqueles que deveriam protegê-lo

"Nunca saio sem documento. Não se sabe o que vai acontecer. Você não sabe o que vai acontecer. Você chega a uma instituição como a Polícia Federal, que você espera que seja livre de racismo e xenofobia, e é discriminado por aqueles que deveriam protegê-lo. Eles sabem que você não fala a língua, mas não se importam. Eles falam com você e, se você não entende o que eles dizem, eles começam a xingar e a ofender. Eles deveriam usar tradutores em vez de humilhar ou dizer coisas como "volte para o seu país" ou "senta aí, se você não tem nada a dizer, ninguém vai ouvir". Isso aconteceu comigo! O fato de essas coisas serem ditas em uma delegacia da Polícia Federal me choca muito."

O racismo está em toda parte aqui

"Vivemos com o racismo aqui. Ao entrar no metrô, por exemplo, você sente isso. Você coloca a mão naquela barra de ferro que as pessoas seguram quando estão em pé, e a pessoa ao seu lado tira a mão da barra e se afasta de você."

A polícia ignorou minha denúncia de discurso de ódio

"Às vezes você entra no shopping, ou entra em uma loja, e dá para perceber que eles acham que você não vai comprar nada. Eles acham que você vai roubar alguma coisa. Eles olham para você e fazem careta. Uma vez tentei relatar à polícia que me chamaram de macaco, mas até mesmo a polícia militar me disse: ‘você está morando aqui como um favor’. Então agora eu só respondo: 'macaco fala com macaco, né?’”

Manifestantes seguram uma faixa onde se lê 'Justiça para Moïse'

Não quero ir à polícia

"Não penso em denunciar o racismo porque não gosto de ir à delegacia de polícia. Não quero que meu nome seja conhecido lá. Em vez disso, tento me proteger e oro a Deus pedindo proteção contra tudo, inclusive contra o racismo e a xenofobia, para que nada venha em minha direção."

O racismo se tornou normal

"Lembro que uma vez me perdi no caminho para o Brás [bairro comercial de São Paulo]. Fui pedir informações a uma mulher, mas ela se assustou e saiu correndo. Fiquei pensando: o que aconteceu? Eu nem tinha acabado de dar boa tarde e ela já estava fugindo. Vivemos todos os dias assim. Isso não é normal, mas acontece com tanta frequência que se tornou uma coisa normal para nós.”

Tive que ficar em silêncio

"O Brasil é um país onde se vê racismo em toda parte. Imagine como é a situação de uma mulher negra e estrangeira refugiada. Eu costumava trabalhar em uma escola. Um dia, o próprio diretor da escola começou a me discriminar. Ele começou a me chamar de ‘prostituta’, ‘vagabunda’. Cinco pessoas testemunharam o fato, e um dos meus colegas brasileiros chamou a polícia. Fomos à delegacia e lá pediram meus documentos. Eu tinha o documento de protocolo, mas os policiais não sabiam o que era. A questão toda passou a ser se eu tinha ou não documento. Tive que ficar calada, indignada, mas calada, porque para eles eu não tinha documento. Não aconteceu nada com o diretor".

Foi do nada

"Eu estava na rua quando, de repente, um adolescente se aproximou de mim, me deu um tapa e me chamou de macaco. Do nada! Fiquei em choque. Pensei: 'cara, que mundo é esse?'"


Para acompanhar essa série, a Missão Paz também produziu um guia de apoio jurídico para migrantes no Brasil. O guia oferece conselhos úteis sobre uma série de questões – desde os direitos e estatuto de migração até como lidar com a xenofobia, o racismo e os crimes de ódio – bem como os contatos dos serviços de apoio aos migrantes no país.

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